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Jornal Correio | Adoção, barriga solidária, gestação no exterior: as histórias de homens solteiros que decidiram ser pais solo

Conheça a história de pais solo, como Yuri, que vive uma adoção monoparental
Conheça a história de pais solo, como Yuri, que vive uma adoção monoparental. Crédito: Marina Silva/CORREIO

Em julho do ano passado, o pediatra Leonardo Vieira, 43 anos, pegou um avião de Belo Horizonte (MG) para a Colômbia, onde veria seu filho Joaquim pela primeira vez. Já o enfermeiro Yuri Sacramento, 28, saiu de Salvador em direção a Guarapuava (PR), para seu primeiro encontro com o filho Deivid Victor.

Enquanto isso, o médico Moacir Oliveira, 47, e o advogado Diego Massena, 34, tiveram trajetórias parecidas mesmo sem se conhecer: foi ainda na maternidade que Moacir conheceu os gêmeos João Antônio e Maria Helena, assim como Diego viveu uma experiência semelhante com as gêmeas Helena e Isabela. Desde muito jovens, esses quatro homens tinham em comum o forte desejo de se tornar pais.

Conviveram com essa vontade por alguns anos e, em alguns casos, até pensaram em viver isso durante algum relacionamento anterior. No entanto, a vida os levou ao mesmo destino: os quatro decidiram, por conta própria, realizar o sonho da paternidade. Neste domingo (13), Dia dos Pais, vão celebrar a data como pais solo ao lado dos filhos.

Num mundo em que a maternidade solo é a realidade de muitas famílias – mesmo aquelas em que as crianças têm o nome do pai no registro -, ser pai solo ainda é coisa nova. No IBGE, não há dados que indiquem o total de famílias com essa formação, por exemplo.

Ainda assim, o contingente de homens dispostos a encarar a paternidade solo pode ser muito maior do que a maioria das pessoas imagina. Na Tammuz Brasil e América Latina, agência internacional de surrogacy (gestação por substituição ou barriga de aluguel), por exemplo, homens solteiros já respondem por 45% dos processos da empresa.

Com sede em Israel, a Tammuz atualmente está em 15 países, incluindo o Brasil. Dos 1,6 mil bebês nascidos, cerca de 160 são brasileiros. Além disso, há 100 outros brasileiros com processos em andamento, entre casais LGBTQ+, pessoas solteiras e casais heterossexuais. “Até para nós, foi uma surpresa ver a quantidade relevante de pedidos de homens solteiros. E não é só no Brasil. A gente vê homens que querem construir sua família e têm apoio de avós da criança, de tios, amigos”, explica a diretora da agência, Bruna Alves.

Enquanto a barriga de aluguel pode ser uma possibilidade para pais que decidem fazer o processo em outros países, no Brasil, é possível ter uma barriga solidária – ou seja, quando não há pagamento pelo útero de substituição. Assim, na reprodução assistida, a parentalidade solo também se tornou uma realidade cada vez mais comum. Ainda que, em geral, seja mais comum que as técnicas sejam difundidas entre mulheres, a presença de homens também tem crescido, de acordo com o médico fertileuta Fábio Vilela, do IVI Salvador.

“Essa parentalidade solo, mais especificamente a paternidade solo, cada vez mais vem ganhando espaço na vida de homens”, diz. A primeira etapa do processo é justamente um espermograma, até chegar a uma barriga solidária, que deve ter parentesco em até quarto grau. Além disso, é preciso ter uma doadora de óvulos, que não pode ter ligação com o bebê. “É um privilégio poder trabalhar com reprodução humana. Nós ficamos muito felizes em fazer parte dessas famílias, cada uma à sua maneira”, acrescenta o médico.

Da mesma forma, a adoção monoparental pode ser feita por qualquer pessoa numa relação familiar, independente do gênero. Como explica a advogada Lara Soares, mestra em Direito pela Ufba, é preciso que a pessoa tenha mais de 18 anos e tenha condições de sustentar uma criança ou adolescente em um ambiente seguro. Uma vez apta, a pessoa pode ser cadastrada no Sistema Nacional de Adoção.

“A segurança perpassa por diversos elementos do ponto de vista de educação, segurança alimentar, lazer, etc. O processo é cheio de fases porque o estado busca entender se a pessoa tem aptidão, condições psicológicas para educar aquela criança ou adolescente.

É preciso se cadastrar para que a adoção prossiga. As dificuldades que um homem pode ter em relação a essa pretensão adotiva são as mesmas de qualquer outra pessoa”, explica ela, que é presidente da Comissão de Direito de Família da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Bahia (OAB-BA).

Para esses pais, é o momento inclusive de ressignificar o conceito por trás da palavra. “Eu acho que todo homem deveria passar pelo processo de ser pai, porque é transformador. Eu olho para trás e me pergunto: como meu pai não viveu o que estou vivendo? Independente das circunstâncias, toda pessoa que hoje sonha em ser pai, seja qual for o método que está disponível, seja adoção, barriga solidária, seja barriga de aluguel no exterior, tem que correr atrás para realizar o sonho”, diz o pediatra Leonardo Vieira.

Yuri, o pai jovem que encarou a adoção monoparental de um pré-adolescente

Na primeira vez que o enfermeiro Yuri Sacramento, 28, pensou em adotar uma criança, ele ainda tinha 15 anos. Naquela época, tinha começado a pensar nas possibilidades para ser pai, que era seu sonho. “Por ser homossexual, não sabia qual mecanismo ia utilizar. Quando fiquei sabendo da adoção, comecei a pesquisar mais sobre o assunto”, conta.

Descobriu que precisava ser maior de idade e, quando completou 18 anos, começou a se aprofundar no tema. Yuri consumia tudo sobre adoção e procurava assistir até a novelas sobre o tema. “No começo, eu achava que só pessoas casadas podiam adotar. Depois percebi que pessoas solteiras também podiam. Em 2017, eu dei entrada no pedido”, lembra.

Na época, ele ainda estava na metade da faculdade. Passou por algumas entrevistas e, em alguns encontros, a psicóloga no fórum costumava questioná-lo se se sentia mesmo preparado, por ser tão jovem. Yuri sempre repetia a mesma resposta: aquele desejo sempre esteve com ele, independente da idade.

Com a pandemia, o processo de habilitação acabou atrasando um pouco. Ele só foi autorizado, então, em janeiro de 2022, pouco antes de sua festa de formatura. Dali em diante, Yuri já começou a organizar o quarto da criança. Ele tinha dito que podia ser qualquer idade entre 0 e 11 anos. No aplicativo do Cadastro Nacional de Adoção, é possível conectar os adotantes às crianças, ver fotos e saber um pouco da história delas.

Quando viu a história e a foto de Deivid Victor, um menino de 11 anos, Yuri sentiu que aquele podia ser seu filho. Comentou com sua mãe e enviou o pedido. Depois de uma semana, um psicólogo da Justiça do Paraná entrou em contato para começarem a fazer a aproximação com o menino, que morava na cidade de Guarapuava (PR).

Yuri e Deivid vão comemorar o segundo Dia dos Pais neste domingo
Yuri e Deivid vão comemorar o segundo Dia dos Pais neste domingo. Crédito: Marina Silva/CORREIO

“A juíza autorizou as aproximações e a primeira era fazer uma cartinha para ele, perguntando se ele aceitava ser meu filho ou não. Ele respondeu minha cartinha dizendo que sim, que aceitava, e contando quem era ele, que gostava de futebol. Desenhou um pai, um filho e um coração do lado”, conta o enfermeiro.

Em seguida, vieram as videochamadas para a aproximação virtual. Mas ao final da primeira, o psicólogo que o acompanhou já tinha se surpreendido com a aproximação dos novos pai e filho. “Ele disse que estava supondo que ia demorar, mas como percebeu que no primeiro contato já houve um afeto grande, ia fazer mais duas e depois a aproximação presencial. Ele disse que eu já podia comprar as passagens”, lembra Yuri, que algumas semanas depois já tinha embarcado para Guarapuava.

No dia 9 de maio do ano passado, os dois se encontraram pela primeira vez. “Ele chegou, a gente se abraçou e foi aquele abraço tão apertado como se a gente nunca tivesse se separado”, conta o pai. Deivid o levou para conhecer o abrigo onde ele morava e o local onde dormia. Por três dias, os dois puderam fazer passeios na região até que, no quarto dia, Yuri já voltava a Salvador com o filho.

Mas não foram apenas flores. As primeiras semanas, inclusive, talvez tenham sido as mais difíceis. Deivid brigava, falava coisas como que queria voltar para o abrigo ou que Yuri não era o pai dele. Àquela altura, porém, Yuri já fazia parte de um grupo de apoio com outras famílias de crianças adotadas e sabia que aquilo poderia acontecer.

Pediu conselhos à coordenadora, de quem ouviu que era preciso ter calma. Escutou que quando aquilo passasse, a convivência seria transformada. “Não deu outra. Toda vez que ele dava o chilique dele, eu sentava com ele no quarto e dizia que ele era meu filho, que eu não ia desistir dele, que Deus tinha dado ele para mim. Acho que ele foi criando mais confiança em mim e foi se abrindo mais. Aquelas birras acabaram em menos de um mês”, lembra.

Algumas semanas depois, o Fórum de Guarapuava enviou uma carta precatória para a Vara de Salvador para saber como estava o processo. A equipe social daqui fez entrevistas com os dois e perguntou a Deivid se poderia finalizar o processo de adoção. A resposta do menino foi que sim, que a casa dele era aqui.

Hoje, Deivid tem 13 anos e uma rotina com a família. O menino admite que, no começo, a adaptação foi difícil – até ao clima mais quente. “Naquele momento (que encontrou o pai pela primeira vez), eu senti a alegria de ter uma família. Eu estava há um bocado de dias lá no abrigo e pensei que não ia ser mais adotado”, diz o adolescente.

Por ser um pouco desatento na escola, onde cursa o 7º ano, o pai criou uma rotina de ir ao colégio todos os dias com ele, onde fica nas primeiras horas do dia. À tarde, Deivid vai para as aulas de reforço escolar. “Estou tão feliz com a adoção com Deivid que aceitei recentemente adotar mais um menino. Deivid está feliz que vai receber mais um irmão”, conta. O garoto já tem uma irmã biológica que foi adotada por uma família de São Paulo.

Neste Dia dos Pais, o segundo em que vão passar juntos, eles devem passar a manhã na praia se fizer sol. Depois, a ideia é fazer um passeio na Orla de Itapuã e tomar açaí.

“Embora minha idade não interfira muito com relação a Deivid, logo no começo foi um desafio por ele ser adolescente. Mas eu consegui colocar ele no meu ritmo. Eu já fui adolescente, mas minha adolescência é diferente da de hoje. Ainda assim, sempre friso sobre a questão das amizades na escola e graças a Deus estou conseguindo levar essa fase”.

Leonardo, o pai que atravessou um continente para buscar o filho

Quando os pais do pediatra Leonardo Vieira Marchiori, 43, se separaram, ele e seu irmão gêmeo tinham oito anos de idade. Assim, ele cresceu sem a presença do pai na rotina de casa, enquanto a mãe e os avós eram quem estava lá. Foi durante a adolescência que a vontade de ter filhos começou a crescer, mas o sentimento permaneceu ali, adormecido, até concluir a faculdade.

Com os anos passando, Leonardo chegou a se preparar para a adoção e até dar início à papelada. Ao mesmo tempo, a ‘barriga de aluguel’ no exterior era uma possibilidade que pairava, desde que ouvira falar sobre, lá pelos idos dos anos 2000. “A princípio, eu estava namorando, tinha um relacionamento. E depois dos 35 anos, eu fiquei naquela dependência de achar que ia dar tempo ter um companheiro para ter esse sonho. Mas vi, em certo momento, que esse era um sonho meu e que eu não precisava esperar alguém para ter esse sonho comigo”, lembra.

Quando entrou em contato com a agência Tammuz, ele conheceu as opções. Na época, os países que permitiam que homens solteiros fizessem o processo eram apenas os Estados Unidos e a Colômbia – hoje, também já é possível fazer surrogacy no México. Por diversos fatores, Leonardo escolheu a Colômbia: da facilidade com a língua e os custos à proximidade do país, que tem voos diretos saindo de Belo Horizonte, onde ele mora.

Uma vez que assinou o contrato, pode escolher uma doadora de óvulos em um banco e o laboratório fez a coleta – tudo na Colômbia. Em seguida, foram criados seis embriões por fertilização in vitro. Depois, a clínica faz uma busca ativa por mulheres que possam ser as gestantes por substituição – ou seja, não é a mesma que a doadora do óvulo. As mulheres precisam já ter tido uma gravidez anteriormente, com uma criança que tenha nascido saudável. Ela precisa passar tanto por exames laboratoriais quanto por acompanhamento psicossocial, assim como a família dela.

No final de maio de 2021, Leonardo viajou para a Colômbia pela primeira vez para coletar material genético. Em agosto, os embriões já tinham sido formados e, em setembro, já tinham definido a gestante por substituição. “A gente trocou Whatsapp, conversou durante toda a gestação, a família participou do processo e fizemos videoconferências no ultrassom. Com 37 semanas, eu fui para Bogotá. Cheguei lá, a conheci pessoalmente, conheci toda a família e eles fizeram um chá de bebê. Pude participar na sala de parto, que foi cesáreo, e estive presente em todo momento”, lembra.

Embora tenha se preparado, ele ainda ficou surpreso quando conheceu Joaquim. “Naquele primeiro momento, você está anestesiado e não acredita. Eu senti a responsabilidade, senti a mudança de vida. Vem uma sensação de muito amor e de muito medo”.

Leonardo tirou uma licença de seis meses para cuidar do filho. Nesse período, não teve nenhuma ajuda, mas era algo que queria viver. Atualmente, ele divide a rotina entre os plantões como pediatra e o cuidado com Joaquim. No resto do tempo, duas babás compartilham os turnos do bebê, que completou um ano no mês passado. “Hoje (dia em que conversou com a reportagem), cheguei do plantão às 7h e meu dia é com Joaquim. Eu troco, dou banho, levo na natação. À tarde, é hora da soneca dele, então coloco para dormir de novo”.

No domingo, a programação é passar o fim de semana juntos. Leonardo está em um relacionamento e os três devem sair juntos para algum restaurante, depois ir ao shopping ou fazer algum passeio que faça parte da rotina da criança. “Vejo muitos pais, maridos de amigas minhas, em relacionamentos que elas são responsáveis por tudo da criança. Tem essa imagem que o pai não tem capacidade de cuidar e isso tem que ser transformado. Qualquer ser humano tem condições de cuidar de outro ser humano, tendo amor, carinho e respeito”.

Leonardo é pai de Joaquim, que nasceu na Colômbia após um processo de surrogacy
Leonardo é pai de Joaquim, que nasceu na Colômbia após um processo de surrogacy. Crédito: Reprodução/Instagram

Ele já planeja o segundo filho para o ano que vem – também através da agência. Nesse caso, o próximo embrião será de uma menina. “Na hora que eu der a partida com a Tammuz, é só fazer a busca ativa pela gestante de substituição. Já falo que (a futura filha) é Maria Antônia”.

Por dois anos, ele se preparou financeiramente para os custos do processo. “Não é um processo barato. Abdiquei de momentos de lazer, de viagens, para realizar esse sonho e também para o resto da vida, porque em muitos momentos da vida você vai abdicar de fazer coisas para que seu filho seja feliz”, diz.

De acordo com a diretora da Tammuz Brasil e América Latina, Bruna Alves, o processo exige paciência e dedicação justamente porque não ocorre perto dos futuros pais, mas em outro país. No Brasil, apenas o modelo de barriga solidária é autorizado por lei, mas brasileiros podem recorrer a agências que fazem o processo no exterior.

Uma das propostas é de um plano de garantia, que inclui tudo que os futuros pais precisam, incluindo uma doadora de óvulos, uma gestante de substituição, custos médicos com clínica e hospital e assessoria jurídica. Dependendo do país, o valor pode oscilar entre US$ 50 mil, no México, até o plano mais completo, que pode passar de US$ 143 mil, nos Estados Unidos. Mas, como aponta Bruna, é preciso também se programar para eventuais custos extras, como a necessidade de uma UTI neonatal, em algumas situações.

“A doadora de óvulos nunca é a gestante por substituição, inclusive é proibido na maioria dos países que a gestante tenha uma ligação genética com o bebê. A doadora passa por um processo em que coletamos os óvulos e são criados os embriões com o esperma dos pais”, explica.

Em geral, o protocolo internacional permite o uso do sêmen de uma pessoa com até 55 anos. Se for necessário também contar com um doador de sêmen, o processo só pode ser feito nos Estados Unidos, que é o único país que permite que o bebê não tenha nenhuma ligação genética com o futuro pai. Nesse caso, ao nascer no país, a criança também recebe a dupla cidadania.

Depois do nascimento do bebê, o pai deve ir até o consulado brasileiro naquele país e providenciar toda a documentação da criança antes de voltar ao Brasil com ela. Em geral, o perfil dos homens solteiros que busca a agência não é muito diferente dos outros públicos.

“A primeira coisa que a maioria deles nos fala é que, no decorrer da vida, nunca tiveram muita certeza de muita coisa, mas sempre tiveram a certeza de que seriam pai ou mãe. Com os homens solteiros, é a mesma coisa. Tem muitos que são filhos únicos e querem fazer a família crescer, outros que já saíram de um casamento. Inclusive, homens solteiros não quer dizer que sejam homem solteiros gays”, diz, citando três casos em andamento de homens solteiros heterossexuais que decidiram ser pais por conta própria depois de sair de um casamento que não deu certo.

As idades costumam ficar entre 35 e 42 anos e, muitas vezes, esses futuros pais têm apoio de outros membros da família, como mães, avós e irmãos. Uma recomendação de Bruna é que, antes de dar início ao processo, busquem clínicas e agências experientes, assim como conteúdo já publicado a respeito não apenas em português, mas também em inglês.

“Eu sempre comento com os pais que é uma montanha russa de emoção, porque eles vão lidar com várias notícias. São assuntos que não estão no dia a dia dele e está tudo bem. Por isso, o ideal é buscar apoio psicológico para fazer essa jornada de forma mais calma. Paternidade e maternidade nem sempre vêm conectadas com o gênero da pessoa. Esses papéis transitam e a criança não vai ter só o pai, mas vai ter uma rede”.

Diego, o pai que lutou na justiça para ter direito a uma barriga solidária

“A rotina dupla que as mulheres tanto falam é uma coisa impressionante. Quando eu olho para uma mulher com o filho, quero abraçar porque sei o que ela está passando”. O relato do advogado e professor universitário Diego Massena, 34, ajuda a entender o quanto a vida dele mudou nos últimos meses. No próximo dia 29 de setembro, as gêmeas Helena e Isabela vão completar um ano de vida e o caso de Diego vai ter inspirado dezenas de outros pais solo pelo Brasil.

O processo de Diego teve repercussão no noticiário depois que ele se tornou o primeiro pai solo a usar a técnica de fertilização in vitro na Bahia, sendo o segundo no país. Depois de passar por alguns relacionamentos onde a outra parte não tinha o sonho de ter filhos, Diego decidiu viver a paternidade por conta própria.

No entanto, teve uma surpresa quando o Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) negou a solicitação para que sua prima fosse barriga solidária. A justificativa, só informada depois que Diego acionou a justiça, foi de que a prima poderia mudar de ideia ou mesmo de ter algum problema no útero no futuro.

Depois que a autorização judicial foi dada, a fertilização in vitro foi feita ainda no começo de fevereiro do ano passado. De lá para cá, muita gente procurou Diego pedindo ajuda. Hoje, ele acompanha processos de outros pais solo, mulheres com endometriose e casais.

“Sempre explico às pessoas para não romantizar. Assim como a dificuldade para as mães solo é muito grande, também tenho a mesma dificuldade. Eu digo sempre que não é papel de pai e mãe. É papel de pai. Se a gente diz que um pai solo é ‘pai e mãe’, é porque você entende que o pai tem só uma responsabilidadezinha”, pondera.

Diego entrou na justiça para conseguir fazer fertilização in vitro
Diego entrou na justiça para conseguir fazer fertilização in vitro. Crédito: Marina Silva/CORREIO

Em casa, a rotina com as meninas é prioridade. Nos seis primeiros meses, ele teve direito à licença maternidade por equiparação e, por isso, pode ficar com as meninas durante todo o tempo. Hoje, ainda que elas já durmam melhor, têm mais energia do que antes. Por isso, a rede de apoio conta com os pais dele e uma babá. Durante o dia, ele organiza o tempo de modo que consiga passar o máximo de tempo com as filhas e volta no horário de almoço para vê-las.

À noite, Diego, que também é professor, precisa sair para dar aula. Nesse período, a mãe dele é quem ajuda. Aos domingos, o dia é todo para elas. A atenção chega a ser tanta que, por vezes, Diego esquece até de fazer as próprias refeições.

Os estereótipos de paternidade e maternidade costumam incomodá-lo. Numa conversa recente com um colega que estava com um caso de divórcio, ouviu do outro que era a mulher quem cuidava dos filhos. Diego engoliu em seco o que, em suas palavras, é uma visão retrógrada.

“Pelo que acompanho como advogado, vejo muitos pais preocupados com a pensão. Dinheiro é importante, mas a atenção é essencial. A criança precisa de carinho, atenção, afeto. Acredito que é preciso mudar essa visão de que a mãe tem uma função e o pai tem outra”.

Não é raro se deparar com o preconceito de outras pessoas. Há quem diga que a criança vai sentir falta da mãe. Outras pessoas chegam a falar como se tivessem pena das meninas por não terem uma mãe ou tentam encontrar a figura materna na avó.

O advogado diz tentar mudar isso. “Acho que o que mais me surpreendeu nesse processo é o amor que a gente sente por um filho. A gente ama pessoas na nossa vida, ama nossos pais. Mas quando se é pai, é um medo de perder constante. Você não liga mais para nada e, quanto mais passa o tempo, mais vai crescendo aquele amor incalculável”.

O processo de Diego tem servido até de precedente para outros casos pelo Brasil. Ele ainda se surpreende com o quanto isso acontece. “Tem um perfil que aparentemente é direcionado. Se tem um pai solo, dois homens, duas mulheres, são essas pessoas que estão tendo dificuldades Brasil afora”, conta.

Neste domingo, Diego e as gêmeas vão estar na casa dos pais dele. Devem passar o dia juntos. “Não consegui planejar nada porque não tenho conseguido fazer planejamento para nada. Provavelmente a gente vai pedir alguma coisa para comer e aproveitar. É puxado, mas queria que todo homem tivesse essa chance. Vai mudar a vida deles”.

Moacir, o pai que mudou o trabalho para cuidar dos filhos

A ficha do médico Moacir Oliveira Santos, 47, só caiu quando ele carregou os gêmeos João Antônio e Maria Helena nos braços pela primeira vez. Apesar de toda a preparação nos meses que antecederam aquele momento, no dia 5 de abril deste ano, nada foi como aquele contato.

João Antônio e Maria Helena, filhos de Moacir, nasceram em abril deste ano
João Antônio e Maria Helena, filhos de Moacir, nasceram em abril deste ano. Crédito: Acervo pessoal

O sonho de ser pai também vinha desde a juventude. Desde cedo, ele já dizia à mãe que queria ter filhos. Como seus pais tinham se separado quando ele tinha seis anos de idade, a vontade de ter sua própria família também vinha crescendo.

“Por conta da minha homossexualidade, eu acabei tendo que postergar isso. Tive dois relacionamentos e, apesar de a gente ter pensado, a gente nunca chegou a concretizar. Mas acredito que Deus dá no tempo certo”, conta.

Com a pandemia, em 2020, Moacir começou a refletir sobre alguns aspectos da vida. Foi ali que decidiu que, mesmo solteiro, queria viver a paternidade. Assim, no início de 2021, chegou à clínica IVI, em Salvador, por indicação de um amigo que tinha passado pelo processo e não mora no Brasil. Por algumas questões como a própria pandemia, precisou adiar o processo. A autorização para ter uma barriga solidária saiu em abril do ano passado.

“Teve uma hora que o pessoal da clínica disse para escolher os caracteres físicos da doadora do óvulo. Eu lembro muito que disse que para mim, não importava se tinha pele negra, pele clara, cabelo ondulado, liso, crespo. Também não importava o grau de instrução. Eu só queria ter os bebês”, conta.

Um ano depois, os bebês nasceram, em Itabuna, onde moram. Em todo o período, a amiga que foi a barriga solidária dava atualizações constantes: fazia questão de dizer a Moacir que os bebês dele estavam bem. A ginecologista e obstetra que fez o parto também era uma amiga de Moacir, então tudo foi ainda mais especial.

“Acho que foi um reencontro com meus filhos, porque sou espírita e foi muito legal. Mas melhor ainda foi pegá-los nos braços e trazê-los para casa depois de três dias”.

A vida mudou em muitos aspectos: da rotina em casa, no trabalho aos cuidados com a família. Ele teve que diminuir a carga horária de trabalho. “Eu era acostumado a trabalhar muito com plantão e também muito com medicina estética. É um trabalho que consome. Mas a gente muda e continua trabalhando, mas um trabalho que lida com a emoção”, diz o médico.

Atualmente, Moacir está em um novo relacionamento com uma pessoa que tem sido parceira na rotina dos bebês. No domingo, todos devem estar juntos e receber amigos em um churrasco na fazenda. A programação, porém, deve ser cedo para se ajustar à rotina dos gêmeos. A ideia é dividir o momento com as pessoas que apoiaram a decisão desde o início.

Antes da gestação, ele lembra ter passado por julgamentos até de pessoas queridas. Ouviu perguntas sobre se não achava que os filhos sentiriam falta de uma mãe. “Eu falei: vou fechar meus olhos para essas questões, porque amor no peito eu tenho. Eu lembro que uma vez, pela minha orientação sexual, alguém me falou: você vai ser mãe ou pai de seus bebês? Eu disse que tive a melhor mãe do mundo, mas que eu seria pai”.

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